- Pollyana Trindade

- 4 de mar.
- 6 min de leitura

Irana Purple é o pseudónimo de Diana Rodrigues, uma escritora que encontra na complexidade das emoções humanas a matéria-prima para as suas obras. Nascida em Vila Nova de Gaia e apaixonada pela noite, pela lua e por romances clássicos, utiliza a escrita para explorar as profundezas da alma e a intensidade de personagens turbulentos. O que começou com versos de poesia e uma paixão pela melancolia transformou-se num estilo literário lírico, onde a dor e a esperança caminham lado a lado.
A sua obra "Acredita no Amor" tem conquistado leitores pela sua abordagem sobre o luto, a autossabotagem e a redenção. Através da história de uma pintora que perdeu o brilho das suas cores após uma perda devastadora, a autora mergulha em temas densos como a depressão, conduzindo o leitor por uma viagem profunda e romântica.
Numa entrevista exclusiva para o The Fawkes, Irana Purple partilha detalhes sobre o seu processo criativo, a sua ligação com a arte e como a escrita a ajuda a dar voz às batalhas silenciosas que muitos enfrentam.
1 - Como foi o seu início na escrita e em que momento você percebeu que precisava compartilhar suas histórias com o público?
Já escrevo há muito tempo, mas só agora estou a começar a encontrar a minha voz como autora, depois de sentir que, sim, “é isto que quero escrever”. Encontrei um propósito. Usar a minha dor e canalizá-la em histórias de personagens reais. Ou seja, agora sei o que quero escrever, e não o que se espera uma autora escrever, isto é, escrever romances baseados nas ondas, nas modas. Não quero isso.
2 - Como você enxerga o atual mercado editorial em Portugal para novos autores? É um ambiente acolhedor para gêneros como o romance contemporâneo?
Sinceramente, é muito complicado. As editoras mais tradicionais não acolhem muito bem novos autores; só as novas editoras, as que estão a começar a crescer…
3 - Você sente que ainda existem barreiras (sejam elas de vocabulário ou de preconceito editorial) para que leitores de outros países lusófonos, como o Brasil, consumam a literatura produzida em Portugal?
Por incrível que pareça, penso que não. Vendi mais ebooks do que esperava na Amazon Kindle Brasil, então sem dúvida não é uma barreira. Acho que é uma oportunidade para conhecerem a língua, o nosso estilo, a nossa cultura, e também penso que a língua de algum modo encanta os brasileiros, por causa da diferença de construção das frases…

4 - Com o Kindle e as plataformas digitais, sua obra atravessa oceanos. Como tem sido o feedback de leitores fora de Portugal?
Vendi alguns ebooks nos Estados Unidos, mas não tive feedback. Até fiquei admirada por ter vendido nos Estados Unidos. Já no Brasil, o feedback é muito bom. Acho que os leitores estão mais concentrados na mensagem da história do que propriamente no erotismo, e isso é bom! Eu gosto!
5 - Como é o seu processo de escrita? Você é uma autora de "planejamento" (que sabe todo o roteiro) ou de "descoberta" (que deixa os personagens guiarem a trama)?
Sou de “descoberta”. Mas ultimamente tenho tirado apontamentos, mas não sei se alguma vez irei usá-los. Gosto de escrever com o coração aberto, de seguir a voz interior.
6 - O título "Acredita no Amor" parece desafiar tanto os personagens quanto o leitor. Por que a escolha desse título e o que ele representa para você hoje?
Desafia bastante, não é? Especialmente a Ariana… Acontece sempre algo que parece querer roubar a capacidade de acreditar num sentimento tão poderoso. Mas ela prova que é forte, mesmo quando parece que vai desistir.
O Daniel é mais firme… Ele nunca desiste dela.
Hoje para mim representa tudo, tudo o que vivo, tudo o que vivi. Faz muito sentido na minha vida, sabes. Por isso é que é tão especial e íntimo.

7 - A arte é um pilar no seu livro. Por que você escolheu esse universo artístico como pano de fundo e como ele ajuda a contar a história de amor dos protagonistas?
Eu escolhi a arte especialmente para conseguir adaptar os meus sentimentos “artísticos” à pintora Ariana. Muitas das emoções que ela sente são baseadas nas minhas. Foi muito interessante procurar “imagens” que retratassem os sentimentos dos dois. A Ariana pinta para não desmoronar completamente, o Daniel pinta também com o mesmo propósito, mas com luz. Quando a conhece, ele praticamente passa a pintar para ela.
8 - Você também possui uma conexão pessoal com as artes visuais, ou a pesquisa foi o que te guiou para descrever esse mundo com tanta propriedade?
Será que eu tenho uma conexão com as artes visuais? Eu gosto de artes, é verdade, gosto de pinturas, mas tenho de entender o que significam, caso contrário não captam a minha atenção. Eu baseei-me no que já vi e observei. Por exemplo, comprei um livro de Monet, que gostei muito do estilo da pintura. Carateriza-se pela luz, que é justamente como o Daniel pinta.
9 - O luto é um tema delicado e as vezes difícil de abordar. Para mim como escritora é algo desafiador de se escrever. Como foi equilibrar a leveza de um romance com a profundidade e o peso emocional de quem está lidando com a superação e o processo de luto?
Eu acho que o luto é difícil no sentido de ser inesperado. Aquelas mortes que acontecem e que nos deixam a pensar… Porquê? É o que acontece no livro. A Ariana ficou suspensa no tempo e nessa questão. Depois, foi tudo construção da personagem. Explosiva, enraivecida com o destino, numa idade muito precoce. Imagina teres 20 anos e o teu grande amor morrer? Claro que não é fácil. É muito sentimento e muita emoção para se gerir nessa idade. Eu até acho que é traumatizante, mas não posso falar com o fator experiência própria.
O Daniel é o ponto de equilíbrio da Ariana (essa leveza do romance que falas), calmo, paciente, compreensivo, quase bom demais para ser verdade.
A Helena também é outro ponto de equilíbrio da Ariana. A amiga que está sempre lá e que não tem preconceitos com nada do que a amiga sente. É muito difícil encontrar amigas assim, mas é possível.

10 - Você acredita que o amor, nas suas diversas formas,
é a única ferramenta capaz de preencher o vazio deixado pelo luto, ou a arte tem um papel igual nessa balança?
O amor é um sentimento tão puro, bonito e forte. Parece simples, mas é tão difícil de escrever sobre o amor… A dificuldade reside nas personalidades, nas histórias que os personagens trazem, nos valores que possuem. O encontro de duas pessoas é sempre um encaixe disso. Ou resulta. Ou não resulta. Ou desistem. Ou não desistem.
Eu acho que o amor não é a única fonte de preencher o vazio. Acho que a fé em Deus também é. A Ariana demorou muito a perceber isso. O único escapismo dela eram as pinturas. É um pouco triste, porque ela está sozinha, a pintar, enraivecida, cheia de dor, de angústia, e eu acho isso muito triste. Na verdade, sei que é muito triste, porque já tive momentos assim, em que escrevia, sozinha… como ela.
11 - Qual dos personagens foi o mais difícil de construir? Existe algum traço neles que foi inspirado em alguém real ou em você mesma?
Nenhum foi difícil. No entanto, no início a Mariana estava a ser um enigma para mim. Até que decidi que iria por outro caminho em relação a ela. Um que fizesse a Ariana crescer.
A Ariana é muito inspirada em mim. Ela é pintora deliberadamente, como forma de eu poder canalizar os meus sentimentos para ela.
12 - Tem alguma cena que você escreveu e que acabou ficando de fora da versão final, mas que você guarda com carinho na memória?
Não tenho nenhuma cena que tenha ficado de fora. O que pode acontecer é que a história é tão especial para mim, tem um propósito tão positivo por entre tantos testes da vida da Ariana, que acabo sempre por reler e, consequentemente, acrescentar detalhes delicados e poéticos numa nova edição.

13 - Se você pudesse definir a essência da mensagem que os protagonistas de "Acredita no Amor" deixam para o mundo, qual seria?
Simples. Nunca parem de sonhar, nem de acreditar nos próprios sonhos, ou numa vida com sentido e propósito. O amor acaba sempre por chegar… e depois o caminho começa.
14 - Por fim, o que você diria aos seus futuros leitores? Estes que estão lendo a entrevista nesse exato momento e se interessaram pela sua obra?
Podes esperar mais romances emocionais, com personagens quebrados, sem filtros nas emoções ou sentimentos, com imperfeições e falhas, com dores de crescimento, que cometem erros mas admitem e aprendem… e com o erotismo sensual como parte do amor que une duas pessoas. Hot garantido! Emoção garantida!

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Informações Extras:
Reportagem: Pollyana Trindade
Convidada: Irana Purple
Fotografia: Irana Purple













