Entrevista: Manuella Monteiro
- Pollyana Trindade

- 16 de dez. de 2025
- 9 min de leitura

Manuella Monteiro é uma mulher Trans, feminista e apaixonada por contar histórias que inspiram, empoderam e transformam. Desde a adolescência, os livros foram seu refúgio e hoje, através da escrita, constroí mundos onde o amor, a superação e a autenticidade são protagonistas.
Seu livro de Natal "Derretendo Corações", uma publicação independente na Amazon, está conquistando leitores devido a sua narrativa leve, inspiradora e mágica, abordando ainda temas como superação, tradicionalismo, diferenças culturais e preconceito de forma delicada e sensível.
Em uma entrevista exclusiva para o The Fawkes, Manuella Monteiro conta sobre sua trajetória como escritora, dificuldades, curiosidades sobre sua obra e sua relação com o Natal.
1. Antes de tudo, quem é você quando não está escrevendo? O que te move, te inspira e te faz sentar para contar histórias?
Sou antes de tudo uma leitora voraz e uma consumidora de narrativas. Amo mergulhar em histórias, seja nas páginas de um livro, no dinamismo de um filme, em séries ou animes. Essa paixão por universos é o que me move. A inspiração, para mim, chega a todo momento. Desde pequena, depois de ler ou assistir a algo muito interessante, eu reinventava a história na minha mente, do meu jeito. Essa necessidade de transformar ideias em contos e de eternizá-las nos livros, dando-lhes a minha voz e o meu toque, é o que me faz sentar e escrever. É a minha forma de participar ativamente da magia.
2. Derretendo Corações é um conto natalino, mas vai muito além do clichê. O que o Natal representa para você como pessoa e como escritora?
O Natal, para mim, transcende o comércio e a correria. É uma época profundamente ligada à gratidão, união e, acima de tudo, esperança. Como escritora, o Natal é a ferramenta perfeita para confrontar o frio do ceticismo. Eu quis transmitir tudo isso neste conto: uma mensagem de esperança e fé, mostrando que mesmo os corações mais gelados podem ser tocados pela magia. O Natal representa o milagre do recomeço, a chance de deixar o passado para trás e acolher a luz — e essa é a essência da jornada de Noely e Henry na Lapônia.
3. Sendo uma mulher trans escrevendo ficção, como sua vivência influencia, consciente ou inconscientemente, as histórias que você escolhe contar?
Minha vivência é a força motriz por trás da minha escrita. Sendo uma mulher trans em um mundo que, frequentemente, busca nos invisibilizar ou nos apagar, meu maior desejo e missão literária é trazer representatividade autêntica para outras pessoas que, como eu, raramente se viam refletidas em personagens que tivessem finais felizes.
Minhas histórias, conscientemente, sempre focam no empoderamento e no crescimento da protagonista. Eu quero mostrar que ser trans não nos impede de amar e de sermos amadas da maneira digna que merecemos. Minha escrita é um ato de resistência que prova que podemos ser muito mais do que um segredo, um fetiche ou uma nota de rodapé trágica. Nós somos as protagonistas das nossas próprias narrativas de amor e sucesso.

4. Sua personagem, Noely Silva, é retratada com afeto, desejo, força e humanidade. O que você sentiu que precisava existir na literatura e ainda não existia, quando começou a escrever esse conto tão sensível e cheio de vida?
Eu sou uma leitora que ama histórias natalinas – o aconchego, a magia, os finais felizes. Mas, olhando para o vasto catálogo desse gênero, percebi que nunca li ou assisti a mulheres como eu ocupando o centro dessas narrativas. Eu nunca vi uma protagonista trans ser a responsável por acender a luz do Natal.
Foi aí que me perguntei: 'Por que não criar também o nosso espaço nesta data tão cara para mim?'
O que precisava existir era a simplicidade do romance e da magia para mulheres trans. Noely Silva nasce dessa necessidade: ela é a prova de que a nossa história também merece ser contada em tons de verde esmeralda, neve e muito amor. Ela precisava ser vista como uma heroína de romance natalino, com todo o afeto, desejo e humanidade que isso implica.
5. Muitas narrativas trans focam apenas na dor e na violência, o que é de extrema importância para causar impacto, visibilidade e reflexão. Porém, sua história retrata de forma extremamente delicada o preconceito e a resistência à diferença. Foi um posicionamento intencional escrever uma história de amor, aconchego e final quentinho?
Com certeza foi um posicionamento intencional. As narrativas sobre a dor e a violência são cruciais, pois geram visibilidade e reflexão sobre a nossa realidade. No entanto, para mim, um conto de Natal deve ser como um abraço caloroso ou um chocolate quente em um dia frio; deve aquecer, acolher e trazer esperança.
Eu quis que 'Derretendo Corações' fosse um refúgio. É uma história que, sim, toca na delicadeza do preconceito e na resistência à diferença através da jornada de Henry, mas seu foco principal é provar que merecemos o direito à felicidade. Escrever um final quentinho foi um ato de carinho e resistência, mostrando que a nossa comunidade também tem o direito de ser protagonista de romances cheios de aconchego.
6. Falando dos protagonistas, qual deles mais te desafiou emocionalmente durante a escrita e qual te deu mais conforto?
O personagem que mais me desafiou foi, sem dúvida, Henry Halonen. Entrar na pele de um homem tão conservador e tradicionalista me exigiu um grande treino de empatia emocional. Foi desafiador dar voz à sua dor e ao seu medo, permitindo que o leitor entendesse o porquê de suas barreiras, mesmo que sua visão de mundo fosse oposta à minha. Henry me forçou a ir além do julgamento.
Já Noely foi o meu grande conforto. Ela é a materialização da força e da resiliência. É aquela mulher que não se intimida e que vai atrás do que deseja, mesmo que isso signifique a coragem de voar para um novo país, uma nova cultura e recomeçar do zero na Lapônia. Noely representa a esperança teimosa que eu desejo para todas as leitoras.

7. A escolha da Lapônia como cenário traz magia, frio e isolamento. É um local não muito comum também para cenário de romance, risos. Qual foi sua inspiração para o escolher?
A Lapônia foi escolhida precisamente por ser o cenário ideal para o choque cultural e emocional dos nossos protagonistas. De um lado, temos Noely, brasileira, que é quente, sonhadora e cheia de vida. Do outro, temos Henry, finlandês, que é frio, pragmático e um tanto recluso. Eu precisava de um ambiente que amplificasse essas diferenças, e o frio polar fez isso de forma brilhante.
Além disso, a Lapônia é a terra do Papai Noel, o berço oficial do Natal, e um lugar surpreendentemente pouco explorado na ficção romântica. Essa combinação de magia, isolamento e paisagens inóspitas, banhadas pela Aurora Boreal, tornou-se o palco perfeito e exclusivo para abrigar a história de amor inesperada e poderosa de Noely e Henry.
8. Como mulher trans publicando sua obra, o que significa ocupar esse espaço na literatura e ser lida por pessoas que talvez nunca tenham tido contato com uma história trans antes?
Ocupar este espaço na literatura significa, acima de tudo, validar a existência da minha comunidade. Meu objetivo é trazer representatividade autêntica e mostrar para os leitores em geral que a vida de mulheres trans pode ser muito mais do que apenas dor, trauma e preconceito. Nós também temos direito ao romance, ao sucesso profissional e aos finais felizes.
Para mim, é uma honra e uma responsabilidade poder escrever histórias que quebrem estereótipos e que inspirem outras pessoas a olhar o mundo com mais empatia, amor e esperança. Ser lida por alguém que nunca teve contato com uma história trans é uma oportunidade de criar uma ponte: a chance de mostrar que, sob as luzes da Aurora Boreal, somos todos movidos pelo mesmo desejo de amar e pertencer.
9. Seu texto transmite acolhimento, como um abraço silencioso. Qual foi o feedback mais impactante, emocionante e significativo que você já recebeu até hoje?
O feedback mais significativo, e o que mais toca meu coração, veio de outras mulheres trans. Receber mensagens dizendo o quão incrível é ler uma história que finalmente traz representatividade para o gênero do romance e do Natal, sem apagar a magia, a força ou o poder do recomeço, é indescritível.
É a prova de que consegui alcançar o meu objetivo: mostrar que a nossa jornada também pode ser sinônimo de felicidade e esperança. Quando a comunidade que eu represento valida o meu trabalho, eu sinto que o livro cumpriu sua missão de ser um abraço caloroso para quem mais precisava.

10. O Natal costuma carregar memórias que aquecem mesmo nos invernos mais longos. Qual é a lembrança natalina que você guarda com mais carinho ou aquele detalhe simples dessa época que sempre faz seu coração sorrir?
Minha lembrança mais querida está ligada à construção da magia, ao lado da minha mãe. Na minha infância, não tínhamos condições de ter uma ceia farta ou decorar a casa como desejávamos. Por isso, a nossa maior tradição hoje é montar a árvore, decorar a casa e cozinhar para receber o espírito do Natal juntas.
É um ritual de gratidão. Cada luzinha, cada enfeite e cada prato preparado simbolizam o quanto nós percorremos. É o nosso recomeço anual, e com certeza, a cada ano que passa, criar as melhores memórias dessa época com ela é o que faz meu coração sorrir mais forte.
11. Você se lembra de quando começou a escrever? O que aquela primeira história dizia sobre quem você era?
Eu sempre tive essa vontade latente de escrever. Me tornei uma leitora voraz aos 14 anos, e desde então, as histórias florescem constantemente na minha mente e no meu coração. No entanto, o ato de sentar e realmente concretizar uma delas demorou.
Somente este ano, em 2025, encontrei a coragem necessária para ir em frente e publicar meu primeiro conto, 'Herdeira da Máfia'. Aquela primeira história falava sobre a ousadia de tomar as rédeas da própria vida, algo que, refletindo agora, ecoa muito a minha própria jornada. Era sobre a necessidade de assumir meu poder e a minha voz, tanto na ficção quanto na realidade.
12. Existe algum projeto, ideia ou história que já esteja planejando para o próximo ano?
Sim, com certeza! O próximo ano promete uma mudança completa de cenário e atmosfera. Se 'Derretendo Corações' nos levou para o frio contemporâneo da Lapônia, meu próximo projeto será um romance de época. Estou mergulhada em pesquisas e muito empolgada em explorar a elegância, os desafios sociais e, claro, os grandes amores que florescem em um tempo mais formal. Será uma oportunidade de mostrar um lado diferente da minha escrita, mantendo sempre o foco em personagens fortes e narrativas emocionantes.

13. Em Derretendo Corações, Noely cria joias que carregam significado, afeto e identidade. Se você fosse criar uma joia para representar a si mesma, como ela seria? Que material, forma ou detalhe carregaria a sua essência?
Minha joia seria um relógio de ouro em formato de borboleta. O ouro representa a preciosidade da nossa essência, que não se corrompe. Mas a forma e o mecanismo são o coração da minha história.
A borboleta simboliza o poder de se autotransformar, a coragem de passar pela metamorfose e emergir em sua forma mais autêntica e colorida. E o fato de ser um relógio é vital: ele me lembra que o tempo é um recurso precioso e que a nossa jornada é marcada pelos momentos em que escolhemos ser quem realmente somos. Seria um lembrete constante de que a transformação é um processo contínuo e que o meu tempo é agora.
14. Muitas pessoas encontram esse conto num momento em que precisam de aconchego. O que você espera que permaneça com o leitor depois da última página?
Eu espero que permaneça, acima de tudo, a esperança inabalável no recomeço. Quero que o leitor feche o livro com a certeza absoluta de que todos nós merecemos o amor. E não falo apenas do amor romântico, como o de Noely e Henry, mas do amor em todas as suas formas: o conforto da família que escolhemos, a lealdade da amizade e, o mais importante, o amor próprio. Se o conto puder inspirar alguém a ser mais gentil consigo mesmo e a acreditar na sua própria magia, minha missão estará completa.
15. Qual é o sua quote favorito de “Derretendo Corações?” Pode contar para gente?
Meu quote favorito, e o mais significativo, é o momento em que Henry Halonen finalmente se rende ao amor, percebendo que pode perder Noely por causa de seu medo e preconceitos. É o clímax emocional da história, quando o gelo dele se quebra.
A citação é esta: 'Eu sei que pedi para você ir, mas o meu coração... meu coração está te pedindo para ficar. Fique. E me ensine a ter o Natal dentro de mim, de novo.'
Essa frase é o resumo de toda a jornada. Ela não só expressa a declaração de amor, mas a rendição total de Henry à esperança, à magia e à oportunidade de recomeçar a vida e o Natal ao lado de Noely

16. E pra fechar com chave de ouro e em clima natalino, que mensagem você deixaria para quem ainda não leu Derretendo Corações, especialmente para quem anda precisando acreditar no amor, em recomeços e na magia do Natal?
Se você está precisando de um abraço neste final de ano, 'Derretendo Corações' é para você. Minha mensagem é simples, mas poderosa: não desista da magia.
Este conto não é apenas sobre a Lapônia e a neve; é sobre a prova de que o amor, a esperança e a gratidão têm o poder de derreter o gelo que carregamos no peito. É sobre encontrar a coragem de recomeçar, não importa o quão frio ou difícil o seu ano tenha sido.
Permita-se embarcar nesta viagem com Noely e Henry. Permita-se acreditar que o seu Natal também pode ser mágico, cheio de luzes e com o final feliz que você merece. Venha descobrir a Lapônia e, quem sabe, encontrar um pedacinho da magia que está esperando para aquecer o seu próprio coração.
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Reportagem: Pollyana Trindade
Convidada: Manuella Monteiro
Fotografia: Manuella Monteiro



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