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POLLYANA TRINDADE

THE FAWKES

  • 1 de set. de 2023
  • 3 min de leitura

× Número de páginas: 407

× Autor: Marcelo Wilker

× Editora: Atlântico

× Gênero: Suspense

× Classificação: +16



No ano de 1965, no Brasil, uma empregada doméstica vê a chegada de vários imigrantes com sotaque alemão na misteriosa e intrigante mansão do casal Werner. Ao mesmo tempo, mulheres que vivem de forma perigosa e considerada por muitas pessoas pecaminosas, começam a sumir de uma hora para a outra, despertando o interesse da população, afinal, o que aconteceu com elas? Para onde foram levadas? Elas fugiram da sua antiga vida ou foram vítimas de um crime brutal?


Em "Operação Noite Suave" você irá se deparar com várias histórias que embora não pareçam a princípio, podem estar mais conectadas do que se espera.


Achei que a obra se mostra um pouco diferente daquilo que esperamos quando lemos a sinopse. É claro que há suspense, mistério e um bom drama envolvendo os personagens, porém, o livro consegue desenvolver uma narrativa que vai muito além disso. O autor Marcelo Wilker através de sua escrita madura e caprichosa prende pela sua maneira de introduzir os personagens no tempo certo, além de proporcionar diálogos bem construídos, temáticas sociais pertinentes e questões comportamentais e psicológicas.


Os "extratos" que o leitor de depara no decorrer de sua leitura revela detalhes importantes para a solução do mistério. É como uma cartilha de respostas, embora nem todas as informações você consiga absorver de cara. Isso acontece porque o autor (na minha opinião) usou de um elemento muito interessante na construção de sua obra: a intriga. Ele leva o leitor a ir atrás de respostas, não as fornecendo rapidamente e nem de uma maneira fácil, muito pelo contrário. É preciso estar atento a cada detalhe e ir encaixando cada peça do quebra-cabeça com calma, avaliando se todos os lados se encaixam. Por isso, apesar de minha experiência de leitura ter sido gratificante, acredito que para algumas pessoas "Operação Noite Suave" possa parecer um livro denso, já que requer certa paciência e disposição para pegar em cada linha, parágrafo e capítulo alguma pista.


Com uma trama intensa e uma boa linguagem, "Operação Noite Suave" se destaca não só pela forma como o autor introduz os costumes, personalidades e problemas de cada personagem, como também como os desenvolve, entregando uma narrativa redondinha com conflitos realistas e bem elaborados; a forma como as histórias de cada um também vai se encaixando é bem gostoso de acompanhar. Não tem como não se emocionar ou se surpreender!


Se passando em uma outra década, o livro consegue ficar na linha tênue entre ficção e realidade, entregando uma história coesa e coerente, mas que mesmo assim ainda possui suas próprias particularidades, possuindo um pequeno toque de fantasia, seja nas descrições das ruas de Buenos Aires, Treblinka ou Hamburgoou; ou na estética presente no programa de rádio por exemplo, algo bem típico da década de 1960, onde as pessoas escutavam bastante o rádio e passavam horas ouvindo programas dos mais variados gêneros.


É uma obra indicada para quem gosta de conhecer culturas, solucionar um mistério inusitado e ainda curtir momentos de desvendar os sentimentos e ações dos próprios personagens, afinal, será que todos estão sendo sinceros e se mostrando como verdadeiramente são? Leia e descubra!


Espero que tenham gostado desta resenha que fiz no capricho para vocês! Um forte abraço e até a próxima!




Informações extras:


Fotografias: Pollyana Trindade

Texto: Pollyana Trindade

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Siga a editora: @atlanticogrupoeditorial

Onde adquirir a obra: Amazon



 
 
 
  • 12 de ago. de 2023
  • 5 min de leitura

× Número de páginas: 260

× Autor: Landerson Rodrigues

× Editora: Pendragon

× Gênero: Thriller

× Classificação: +18


ATENÇÃO! A obra a seguir NÃO é recomendada para menores de 18 anos! O livro aborda temas que podem ser sensíveis para algumas pessoas, tais como: estupro, violência sexual, corporal e automutilação.


Rodrigo Montibeller é um renomado detetive nacional, tendo solucionado vários crimes e sendo uma espécie de herói para o povo da cidade de Recife. Um dia, seu telefone toca durante a madrugada. Um novo crime aconteceu, semelhante a outro, não solucionado há um ano atrás. Ele e seu parceiro, Alexandre, vão depressa para o lugar, porém, não esperavam encontrar com mais uma cena de horror, parecia ter sido tirada de um dos episódios de séries policiais famosas. Ao que tudo indicava, havia um serial killer à solta e se inicia uma corrida contra o tempo. Ameaças colocam em risco a vida das pessoas ao redor deles. Sem pistas de onde começar e para onde ir, os detetives se deparam com o caso mais desafiador de suas carreiras.


A escrita de Landerson Rodrigues é bem detalhista. O autor se preocupa de não só descrever com cuidado a cena do crime em si, dando informações precisas de como se encontra o corpo da vítima e o local do crime, para que desta forma o leitor se sinta realmente como se estivesse investigando com os detetives, como também descreve a cidade de Recife de uma forma bem lúdica. Os leitores que não conhecem a cidade poderão se sentir familiarizados com cada rua, conhecendo os melhores e piores bairros, os lugares mais visitados, os problemas comuns da cidade, como o rio Capibaribe, que atualmente se encontra com um aspecto escuro e com mau cheiro devido a sujeira que as pessoas jogam nele; a sua parte mais bela, como os grandes edifícios bem estruturados, o clima gostoso e a ponte Buarque de Macedo.


"Nós estávamos acostumados com as roupas de frio e com a falta de suor. Recife é totalmente o oposto, a cada passo dado, uma gota de suor escorre do rosto. É muito quente, mas não deixa de ser uma cidade linda."

Dividida em quatro partes: "Procurando o Achado", "Jogos Mortais", "Quando um Estranho Chama" e "How to Get Away With Murder", a obra consegue cumprir o o objetivo de explorar o pior e o melhor lado de cada personagem, apresentar uma história coesa onde o principal objetivo não é só apenas solucionar uma onda de crimes bárbaros e descobrir a identidade do assassino, mas também desvendar o passado, os traumas e verdadeiras identidades de cada personagem, afinal, todos escondem algo, não demonstrando por inteiro quem realmente são. Porém, na minha opinião, a obra não conseguiu me surpreender no quesito desfecho, já que desde o começo já tinha determinadas suspeitas sobre quem poderia ser o criminoso. E, quanto mais avançava na história, mais certeza tinha sobre minhas teorias. No final eu estava certa e confesso que fiquei um pouquinho decepcionada, afinal, em livros de romance policial ou thriller, o que eu mais gosto é de ser surpreendida e ficar de queixo caído, com aquela expressão de "AI MEU DEUS!!!" ou então "Como isso é possível?!"

Outro ponto negativo de "O Monstro Atrás da Porta" (e reforço novamente se tratar da minha opinião pessoal), é que o autor se concentrou demais em deixar explícito cenas que talvez não fossem tão necessárias assim. Havia determinados capítulos onde continha cenas adultas, envolvendo sexo, violência física ou sexual e assédio, e eu particularmente me sinto desconfortável lendo histórias que detalham de forma exagerada esse tipo de cena. Claro, há um contexto por trás de algumas delas, sendo importantes para entendermos determinadas práticas e descobrir possíveis transtornos psicológicos de alguns personagens, contudo, outras cenas pareciam ser jogadas na história, podendo serem cortadas ou então puladas, não possuindo qualquer necessidade de leitura para a compreensão da trama.


"Uma chuva torrencial, com relâmpagos e trovões, caía lá fora. Estava tudo escuro. Eu sentia que tinha algo de estranho e ruim dentro da casa, mas não sabia o que era. Uma presença, um animal, um monstro talvez. Sei que estava ali e que queria me fazer mal."

Comentando sobre os pontos positivos, "O Monstro Atrás da Porta" consegue capturar bem a atenção do leitor. Em todo momento há uma nova pista, uma reviravolta, uma descoberta que faz com que a história prossiga e ganhe um novo ritmo; troca de perspectiva onde um capítulo é narrado pelo Rodrigo Montibeller, outro pelo seu parceiro, Alexandre Belarmino; e, claro, a marcação de data de cada capítulo, ajudando desta forma o leitor a saber direitinho em que época a história está se passando.


"As festas de fim de ano na minha família são sempre excelentes. É uma alegria poder receber meus familiares. Durante o ano não temos contato."

Comentando um pouco sobre os personagens, todos tiveram uma participação especial na trama, servindo para apimentar a história e deixá-la mais emocionante. É claro que o grande destaque foram Rodrigo Montibeller e Alexandre Belarmino, já que ambos possuem as maiores falas e momentos marcantes, além do leitor adentrar na mente de ambos através dos capítulos narrados por eles. O engraçado é que ao contrário do que esperava antes de começar de fato a leitura , não consegui em momento algum criar certa afeição com Rodrigo. Quanto mais o conhecia, menos gostava dele. Não vou falar os motivos para não dar spoilers, claro, mas não só algumas de suas atitudes me deixaram bem transtornada, como também seu próprio jeito de lidar com a investigação, seus colegas de trabalho — sempre se achando superior e melhor em tudo — e nunca se colocando no lugar do outro, me incomodou muito. Em contrapartida, seu parceiro Alexandre era quase seu oposto. Simpático e empático, ele se comovia com a família das vítimas por exemplo, e demonstrava suas fraquezas de uma forma bem humana. Era fácil se identificar com ele e torcer para que tudo desse certo, seja na sua carreira ou em seu relacionamento amoroso. Os dois me proporcionaram sentimentos diferentes e isso foi o ponto mais alto da obra, afinal, demonstra o quão versátil o autor é em criar personagens tão únicos e distintos.


"O Monstro Atrás da Porta" é uma boa pedida para os que desejam começar a se aventurar no gênero. A investigação é gostosa de acompanhar e juntar todas as pistas é divertido. Embora — na minha opinião — a conclusão tenha sido um pouco óbvia, a obra conseguiu render uma experiência interessante, principalmente por causa dos pontos positivos comentados acima. Contudo, reforço que essa NÃO é uma obra leve, não sendo recomendada para menores de dezoito anos.


Espero que tenham gostado desta resenha que fiz no capricho para vocês! Um forte abraço e até a próxima!



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Fotografias: Pollyana Trindade

Texto: Pollyana Trindade

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× Número de páginas: 179

× Autor: Renan Correia da Silva

× Gênero: Fantasia

× Classificação: +14



Possuindo 179 páginas, a fantasia de Renan Correia da Silva é dividido em duas partes: a primeira, onde o autor apresenta o seu universo fantástico e a segunda, contendo cartas aos leitores para esclarecer possíveis dúvidas na trama ou então para lhes contar curiosidades sobre esse mundo inovador tão peculiar.

Muitos livros focam no místico e tentam entregar ao leitor uma experiência completa e imersiva, retratando ainda uma cultura realista, com características próprias. Porém, são poucos os livros que conseguem de fato esta façanha por não desenvolverem com maestria a identidade do povo que está sendo descrito na trama. E, no caso em específico de "Sangue do Imortal", mesmo com a presença de quatro povos: Erukianos, Eluinos, Iluinos e Kainarius; o autor soube apresentar a particularidade, tradição, história e costume de cada um.

Ainda falando sobre os povos, todos tiveram uma participação importante na história e um momento em específico de foco, portanto, nenhuma fora deixado de lado (o que geralmente também é comum de ocorrer).

Focando no místico, "Sangue do Imortal" aposta em uma mitologia própria elaboradas pelo próprio autor tendo como base várias religiões, ainda possuindo criaturas inovadoras e a presença de maldições.

É uma obra indicada para quem busca uma leitura mais intensa e profunda, saindo um pouco da normalidade do que conhecemos como "fantasia", afinal, embora tenha diversos elementos do gênero, Renan Correia da Silva abusa da filosofia e política, o que deixa a história não só mais madura e adulta, mas também um pouco densa (para quem não estiver acostumado com esse tipo de leitura), portanto, devo alertar que a obra deve ser lida com calma, avançando aos poucos para não perder nenhum detalhe importante, como a conexão dos deuses com seus respectivos povos, a razão pelo qual os conflitos se iniciaram — assim como os castigos — e até mesmo as mensagens subliminares, deixadas muitas vezes nas entrelinhas, com o objetivo claro de obrigar o leitor a refletir sobre determinado assunto.


"Sangue do Imortal" traz, principalmente, em sua narrativa, a temática central envolvendo a imortalidade e o que o ser humano é capaz de fazer para conquistá-la, não tendo a consciência de que viver para sempre não significa a felicidade eterna, mas sim, um fardo que deve ser carregado.

O autor ainda nos leva a questionar sobre a morte e a velhice. Afinal, quanto mais perto chegamos do fim da vida, mais amadurecemos? A evolução está associada ao tempo de vida? Se pararmos para pensar, a resposta óbvia para essas perguntas pode ser "sim". Levando para um contexto geral, imagine se você vivesse para sempre. Isso significaria que você nunca morreria, portanto, sempre se manteria o mesmo, nunca evoluindo.

As mudanças não existiriam e não digo isso só no sentido físico. Conforme vamos avançando na idade, nossa mente vai mudando. Amadurecemos e crescemos. De repente aquela música que ouvíamos na adolescência quando somos adultos não é mais atrativa assim. Do mesmo modo, aquela mistura nada convencional entre salgado e doce não agrada mais nosso paladar.


Contendo ilustrações feitas a mão pelo próprio autor (você irá se deparar com algumas delas nesse post) retratando alguns personagens e cenas descritas na obra, "Sangue do Imortal" de maneira geral, cumpre com o propósito de levar o leitor a uma viagem repleta de desafios, questionamentos, ensinamentos e reflexões sobre a vida e a sua origem; a morte e o fim; a violência humana, a desordem e o caos movido a sentimentos de ganância, egoísmo e soberba principalmente, ainda retratando um ser humano mais primitivo, que busca a qualquer custo um jeito de evoluir e melhorar, mas que ao mesmo tempo, toma decisões erradas que culminam em tragédia.


Sobre a ambientação, gostei bastante do fato dela ter um toque histórico. Em determinando momento me senti como se estivesse lendo um livro de história, pois o autor teve o cuidado de detalhar de forma minuciosa cada cenário, inserindo ainda elementos que o leitor pudesse associar sem dificuldade, uma característica de um deus, por exemplo, ou um povo.


"Sangue do Imortal" é uma boa pedida para os que não temem se aventurar em uma história desafiadora, repleta de camadas que se interligam e se complementam. Reforço novamente que não é o tipo de leitura que deve ser feita rapidamente, mas sim, com calma, prestando atenção em cada detalhe.

Abaixo, você poderá desfrutar de uma entrevista exclusiva feita com o autor Renan Correia da Silva para o The Fawkes. Nela, o autor conta outras curiosidades, não só sobre "Sangue do Imortal", mas também sobre sua própria carreira como escritor.


1 - Como lhe ocorreu a ideia de escrever "Sangue do Imortal"? Qual foi sua inspiração?


Digamos que ocorreu do seguinte modo, primeiro, eu estava trabalhando num grande compêndio, tendo uma história gigantesca que trata de uma transformação do mundo no sentido abissal. O que tanto as questões da minúcia, detalhe e aspecto, da cronologia do mundo ficcional (dos deuses e os mortais na história), seria tanta coisa que minha mente não conseguiria resolver e não seria satisfatório para mim, então, devido a questão de ansiedade em buscar publicar e realizar, resolvi diminuir do tamanho de um oceano pra uma bacia que armazena água. A história de conflito entre o protagonista e uma crise política, seria extremamente menor que uma armadilha que os deuses fazem com os mortais. Assim, voltei-me a Shakespeare e a ler as obras magnânimas, sendo a principal o Hamlet, o príncipe dinamarquês e o Macbeth, o rei tirano, além de algumas influências do livro de Daniel, quanto a Nabucodonosor e sua transformação em animal. Assim comecei a estabelecer o dilema no psiquismo do protagonista, não numa questão de arte triunfante, a qual diferente de uma perspectiva materialista, sendo o emprego do avanço tecnológico e militar, como sentido de força e poderio. Digo de modo oposto a questão da arte com visão de enaltecimento do material, sendo de modo a uma arte fascista de um líder poderoso e triunfante glorioso, acontecendo do protagonista em seu triunfo ser trágico. Tendo em si, digamos, uma característica de dúvida, medo e insegurança, a qual na arte dos seguidores de Benito Mussolini, seria rechaçada e odiável, o líder supremo chorar, ficar confuso, pedir conselhos a mulheres (as sacerdotisas e a deusa) e ter dúvidas. Do mesmo modo, seria com a perspectiva de uma arte com perspectiva de esquerda, demonstrando as massas como fortes e organizadas, no caso da história, as massas são alheias e são inexpressivas em relação a trama política, o que os seguidores de Stalin rechaçariam. O povo, as massas na história deste livro, eles são como amontoados e ao serem liderados, também são insignificantes no conflito armado. Dado que o conflito é resolvido entre os próprios monarcas, sendo o povo, as massas, apenas observadores de todo o acontecido. Isto pela trama ter caráter de uma relação dialética da alma humana com o divino, sendo o tema do psiquismo, como uma pressão, na qual, rompe o coração e o ego, mesmo sendo um rei imortal, revelando o quão insignificante é tudo que fazemos sob o Sol. Não há interesse em agradar gregos e troianos, a história tem que valer pelo que é, não pelo que pode ser reinterpretado dela.



2 - Você possui um estilo de escrita diferente, baseado nos textos do oriente médio, como a Bíblia, Alcorão e Poesia Árabe. Da onde surgiu seu interesse por esse tipo de escrita? Você realizou alguma pesquisa para se basear ou são textos que já tem o costume de ler?


O Oriente médio, sempre possuiu em minha mente um tipo de fascínio, dado a toda a riqueza ali, seja de Mesopotâmia a Jerusalém, tendo uma riqueza extremamente incalculável. Desde pequeno, sempre tive contato com textos do oriente médio, começando a florescer este deleite com aqueles povos do deserto por sua poesia. Há um poema que me lembro de ter ouvido, não me lembro o nome e nunca o reencontrei, mas o poema era de um comerciante que desejava chegar a Meca, pois lá estava a sua amada, contando o poeta que durante o dia o sol lhe castigava com o calor insuportável e a lua lhe castigava com o frio, mas a única coisa que realmente o fazia chorar e soluçar era estar longe da sua mulher amada. Nisso, comecei a estudar e a procurar entender todas as questões, desde leis, regras, costumes e todas estas coisas, sendo do meu estudo do mundo antigo (Da Suméria a Roma), o que eu acabo introduzindo na forma como o mundo ficcional (terra de Gurlu) é.


3 - Como é para você ter pessoas lendo sua história e comentando sobre ela?


Me diverte muito. Isso evidentemente como qualquer dos autores que teve um certo esforço mental em escrever, criar e desenvolver todos os temas, procurando deixar tudo na questão de detalhes, dentro do meu agrado, embora eu confesse que o livro tinha muito mais detalhes e partes que retirei por achar que não conseguiria realizar. Tendo a relação de Benaen, a princesa da história e o rei se relacionando, sendo tanto de maneira como homem e mulher, quanto mentes com o interesse pelo conhecimento. Demonstrando aspectos do pedantismo dela quanto da loucura que o Ulon tem, isto por ele se comunicar com deuses e espíritos. Tinha também a questão da história ser atravessada pelos deuses, teria alguns capítulos extras que Klye, Kainar, El e Il, os deuses dos povos, iriam debater e discutir, sendo que conforme o tempo e a situação da época, acreditei que iria me consumir muito tempo. As pessoas meio que me são como lentes, elas percebem coisas aqui e ali, algumas com uma mente mais aguçada, conseguem fazer análises mais interessantes que o meu pensamento, outras pessoas absorvem os temas de maneiras fantásticas, tendo opiniões super interessantes e alguns acham maneiro ler sobre reis tretando.


4 - Sua história fala sobre conflitos entre reis, busca por riqueza e grandeza, maldições entre reinos, guerras... São temáticas bem comuns presentes no gênero de fantasia. Você sempre quis escrever este gênero ou foi algo que surgiu naturalmente?


Quando tinha 15 anos, eu era apaixonado e fascinado com o mundo de Hora de Aventura, sendo que neste período que comecei a escrever, foi quando criei o povo dos Erukianos, os deuses (Lokitz, Kadlo e Eruk) já existiam em minha imaginação, sendo que conforme a terra de Ooo era toda dividida de muitas maneiras, criei algumas terras, as quais foram o embrião de tudo que há em Gurlu. Era muito parecido com a estrutura do Mundo de Hora de Aventura, tenho alguns desenhos dessa época e alguns escritos salvos, mas não são muito bons, acontecendo que tenho um desenho desta época de início que é apresentável para mostrar. O que aconteceu foi somente refinamento e esforço em aperfeiçoar, conforme fui desenvolvendo o meu pensamento, por meio de meditação, leitura de filosofia e estudo da história dos povos. Além de um estudo contínuo sobre questões de povos tribais e sistemas religiosos, ritualísticos e mágicos, os quais enraizaram em muitas coisas que foram dando forma a Gurlu (Meu mundo ficcional). Assim foi chegando a forma que é hoje.


5 - E há outro gênero que você tem vontade de explorar?


Eu já escrevi uma história sobre um futuro que a humanidade convive com os robôs, escrevendo como se fosse um livro de gênesis em linguagem antiga falando de algo do futuro, o livro iria tratar da rebelião dos robôs, seria algo semelhante ao que acontece com Igigi e os Anunnakis com a criação de Adapa, só que com robôs. Mas como tem muitas coisas para eu escrever sobre Gurlu, deixei de lado essa história.


6 - Como você enxerga a receptividade das pessoas, sobretudo os jovens para a narrativa fantástica? Acredita que exista dificuldade em apresentar teu livro a um público mais jovem?


Acredito que há um problema em levar este tipo de história aos jovens, mas acontece que não considerei no momento de criação, a direção do público alvo ser para os jovens, dado aos temas complexos e difíceis que apresenta. Mas para um público mais ‘’cascudo’’, no sentido de estarem mais inteirados de questões filosóficas, religiosas e morais, acontecendo que entendo que muito dos jovens, devido a questões do próprio psiquismo da época de seu corpo, consomem coisas mais ligados a questões emocionais e próprias do humor. Mas eu estou no presente momento fazendo uma obra que é mais ampla, acredito que consigo lidar com minhas questões artísticas, digamos direcionadas aos clássicos e simplificar as minhas questões artísticas, tornando-as mais palatáveis, por uma obra de poesia que trata do desejo de um homem a mulher amada. A poesia no domínio de Afrodite, o amor e o desejo é algo que transpassa a todas as idades, todas as mentes e línguas, dado que o desejo e ânsia pelo que se é amado, é universal, mas envolvido de poesia, com seres mitológicos e associações a constelações e estrelas, todas estas se harmonizando pelo amor é algo que acredito que irá chegar a mais pessoas. O poema se chamará Oração a Afrodite, digamos que o grosso do livro já escrevi, apenas estou no presente momento ornamentando com ilustrações e complementando com poesias esparsas, as quais tem a mulher amada como o ser que a poesia exalta e enaltece. Tenho o primeiro esboço da capa, acredito que posso lhe mandar, já que a atual não possui nenhuma relação com essa. Este poema, possui uma estrutura que carrega aspectos de simbolismo, tendo elementos de mitologia grega, egípcia, celta e japonesa, os quais são encarnados em quatro moças que algumas características, são ditas tanto na moça da parte do poema quanto na deusa, as duas partes (mulher e deusa) se entrelaçam. O poema não será grande, não chegará a 50 páginas, mas será trabalhado, em sentido de ilustração, com cuidado e paciência. Eu acredito que irei o concluir até o início de Dezembro, pelo ritmo que estou indo.


7 - Como escritor, quais dificuldades você passou antes de publicar "Sangue do Imortal"?


Eu tive alguns problemas relacionados a uma série de coisas, desde o modo como eu iria mandar para as editoras, a forma como eu registrei o livro no meu nome na Biblioteca Nacional, além de um grande estresse quanto a revisão. Já que fiquei alguns dias olhando o computador e não tendo nenhuma solução, o que me causaram uma série de irritações e inquietações, o que afetou tanto o trabalho quanto a saúde. Mas dentre todas, a maior foi do período que eu terminei o livro, o qual estava no auge da Pandemia, estando desempregado e tive que segurar as pontas, sem ter nem como ir em busca de meu sonho, somente naqueles dias, tendo que recorrer a meditação e ao estoicismo. Acontecendo que a única coisa que não me fez durante estes dias, digamos jogar tudo pro alto e se esquecer de tudo, foi a minha busca incessante pelo Divino. O Divino é para mim como um Sol no horizonte, o qual conforme vou caminhando, dando passos sobre a areia, mais nítidas vão ficando minhas imperfeições, o que conforme se aumenta a luz, os poros, os fios de cabelos, as feridas e as cicatrizes em minha pele ficam mais nítidas. Tudo se torna cada vez mais um profundo chamado do amor ao divino, em buscar corrigir os meus erros, minhas inquietações e meus julgamentos, para que os meus dias nesta terra, antes de me deitar sob o sol, sejam melhores e eu me torne aos meus próprios olhos, mais digno da imagem humana. Todas as vezes que eu pensei em desistir ou mesmo me veio o desânimo, fora na esperança de dias melhores, sendo irradiados pelo Sol que continuei buscando melhorar e me corrigir, para que a minha vida e daqueles que amo sejam mais gratificantes. Pois quando no amor ao divino, todas as nossas tristezas e dores se tornam poeira. Isto, os nossos amigos cristãos místicos compreendem ricamente.

8 - A obra possui uma mitologia própria. Sinto que ela reúne traços de várias mitologias existentes, conseguindo assim dar um toque de familiaridade. Cada deus possui suas próprias características e personalidade. Personagens importantes na trama, cada um fez uma escolha que acatou numa consequência. Há alguma mensagem que você gostaria de passar?


A história, assim como em nossos dias, está tratando do grande conflito, o conflito entre Marduk e Tiamat, a ordem e o caos, sendo que sobre a natureza humana, ocorre isto. No linguajar cristão, isto seria o conflito entre Cristo e Satã, o qual evidentemente se trata em se submeter a ordem e se rebelar contra ela. Digamos que as civilizações desde o passado, todas elas foram fundadas com estruturas de comportamentos, leis e regras, as quais evidentemente, cerceiam a natureza humana, mas isto, cria uma organização e um funcionamento, reprimindo e condenando tudo que não se encaixa na estrutura. Claramente, isto é algo que irá se repetir, como aconteceu inúmeras vezes nas civilizações anteriores (Suméria, Egito, Grécia, Asteca, Maya e etc), de modo que é intrínseco a nossa natureza, a natureza humana sempre busca se exceder. Não por sermos qualquer coisa, mas por existir a parte animalesca em nós, sendo evidentemente não incorporada e possível de se integrar as regras e leis dos deuses e ancestrais nossos, já que nossa natureza sempre tende a ser disfuncional, auto destrutiva e passional, dado que nossos instintos se apetece do destrutivo. Para os nossos dias, isto evidentemente pode ser observado no modo como as nações que são democráticas e ligadas a questões da subjetividade humana, em lhe acolher e confortar, devido a todo um esforço em prestar apoio às pessoas, estão falhando diante das nações que possuem regimes mais autoritários que organizam fortemente a população. Qualquer civilização, seja esta a mais primordial ou a mais desenvolvida, somente se separam pelo modo como se organizam, quanto mais definido, mais elaborado e preciso são a sua forma, sua estrutura e o modo de suas regras, mais eficiente ela é. Pode-se ver isto mesmo nas pessoas, se existem duas pessoas, uma é despreocupada e vive sem perspectiva, não buscando ter disciplina e nem mesmo possui objetivos, certamente não irá alcançar os mesmos resultados que o focado e disciplinado. É claro que isto, evidentemente, é sempre ocasionador de esforço, sacrifício e privações, o que nunca é atrativo ou saboroso para a vida, mas assim são as coisas. Hoje nós temos as cidades, aparelhos tecnológicos e condições de buscar viver melhor, isto, claramente foi somente conseguido com o esforço de milhares de vidas dos nossos ancestrais, os quais por esforço e sofrimento infinitos, fizeram a nossa espécie o homo sapiens sair das cavernas. O que nós devemos a todos os nossos ancestrais, o máximo respeito, reverência e admiração, diferente do que a maioria desses ideólogos, sentados em suas escrivaninhas, vivendo em suas utopias mentais, zombam, debocham e ridicularizam, a força, o sofrimento, a resiliência e o esforço que todos aqueles homens e mulheres tiveram para nos transmitir a chama da vida. A história fundadora da civilização atual, fala que Cristo para que a humanidade, todo o mundo, pudesse ser salvo, teve que passar por um sofrimento gigantesco, ocorrendo a morte de Deus, para que nascesse algo de bom no mundo (O Evangelho). Do mesmo modo é com a mãe, o corpo passa por uma transformação, ocorrendo a dor do parto, a qual faz com que nasça a criança, um ser inocente e puro. O livro evidentemente fala da mesma coisa, relatando de maneira resumida e corrida, sobre os 2700 e poucos anos que o rei, o protagonista se debruça em esforço violento (político, militar e econômico) para que as nações e povos, eles não entrem em conflito, acontecendo que nisso, ele deforma a natureza humana. Acontecendo que o tema do livro, trata da reação, do desejo humano de se exceder, recorrer a violência e a brutalidade quando é reprimida. Assim como Tiamat contra Marduk, Satã contra Cristo, Tifão contra Zeus, o monstro contra o herói, o caos e a ordem se colidem como forças cósmicas e antagônicas no espírito do homem. Diferente dos meus amigos hegelianos, dos meus amigos marxistas, dos darwinistas sociais, eu não acredito em solução para ser humano, somente no transcendental.


9 - Qual feedback obtido de leitores você tem recebido? Há algum que lhe emocionou mais?


Eu sou um homem de ordem platônica, o que para mim, Platão realmente como dizem os antigos pensadores de Alexandria, foi um semideus, um filho de Zeus na terra. E isto, claramente, tenho conseguido o meu objetivo, o qual é que as pessoas, ao lerem a história reflitam, não nas questões do livro em si somente, mas sobre elas mesmas, em sentido de vida e sobre o modo como nosso mundo está e é. Isso para mim, digamos que em uma escala extremamente inferior, no sentido de comparar um oceano a uma bacia com água, está em relação às obras dos meus heróis da literatura para minha obra. Mas é uma realização, a qual para mim, vale todo o esforço, dado que como dizem os antigos, nós, os mortais, somente somos lembrados por enobrecer aos outros, sendo dignos de saudade e admiração ou por degradar aos outros, sendo dignos de escárnio e desprezo. Estou tentando antes de me deitar no sono eterno, quando for para junto de meus ancestrais, não ter vergonha ou desculpa, mas agradecimentos por eles terem me passado a tocha da vida.


10 - Você acredita que a literatura nacional, sobretudo a fantástica, está crescendo no Brasil?


As nações sempre refletem parte de sua literatura, o que evidentemente os escritores, sejam eles dos campos que forem, conseguem captar de algum modo, em seus inúmeros estilos, facetas, aspectos e mesmo preferências, a alma da civilização. Quanto mais uma nação, busca crescer e se aumentar em sentido de importância, dignidade e valor, mais se torna a literatura capaz de tratar do ser, acontecendo que o ser brasileiro, digamos, ele é em geral, um amontoado de contradições e incoerências, as quais, um autor, no momento propício, vem com um texto e obra capaz de fazer uma imagem da alma brasileira. O brasileiro ele possui em si, a contradição e seu dilema é existencial, pois em suas veias, em sua carne, se misturam de modo muito integrado o opressor e o oprimido, acontecendo que vai conforme se aumentar a consciência do povo brasileiro a isto, virá um autor que irá tratar dessa união de retalhos, lhe dando uma forma. A qual, unindo por um sentido de grandiosidade, conseguirá tratar deste ente, o ser que une as Américas e Ásia, África e Europa, conseguirá falar de modo ricamente, sobre a alma, a carne, os ossos e o sangue do ente brasileiro, o qual em suas entranhas une grande parte da história do mundo em si. A fantasia, pode tentar de certo modo, tratar disso, digamos que pode unir em sentido de poesia, aos povos e seus deuses, fazerem com que Prometeu, Ptah, Viracocha e Nuwa se reúnam numa só pessoa, o brasileiro.

11 - Na sua opinião, qual é o papel da fantasia? E, aproveitando o gancho, quais influências ou reflexões você espera que "Sangue do Imortal" proporcione as pessoas?


A fantasia se refere sempre a um lugar do tipo que ultrapassa a nossa realidade costumeira, neste local, o que comumente se refere em nossa língua de Contos de Fada, sendo o local por Terra Encantada. É neste local que a fantasia se exerce, pois no sentido da fantasia, explorar uma terra desconhecida e não semelhante a nossa, ali podem existir belezas e maravilhas que não são naturais no nosso dia a dia. Como acontece de se unir a um leão e uma água, sendo o grifo, morando este na Terra Encantada, local que muitas belezas, maravilhas e mistérios não são conhecidos pelos homens. Pois todas as coisas que existem aqui, a beleza, o amor e o prazer, também existem lá, mas eles são maiores, por existirem em um local desconhecido e que possui tudo fora dos limites que são conhecidos ao ser humano. O amor pode ser o amor de dois seres imortais, tendo uma beleza esse sentimento que perdura por milênios, o qual este sentimento, nunca de modo algum penetrou o coração humano, pois nenhum coração humano suportaria algo assim, mas nas criaturas da fantasia sim, ali, neste reino, tudo pode ser mais belo, maravilhoso que tudo que conhecemos, sendo do mesmo que o benigno, também o feio, o horrível, no qual, nada no mundo se aproxima. Vou dar um exemplo: Há o filme do Superman, acredito que o primeiro, se minha memória não estiver enganada. O Superman é um ser fantasioso, no qual, todas as capacidades humanas são exageradas e há nele dons que nós não temos, podendo ele voar, carregar montanhas e mesmo suportar tudo, acontecendo que ele é semelhante a um deus no meio de nós. Acontece que no filme, devido a uma artimanha do Lex Luthor, envia uma bomba para um região e o Superman salva a vida de milhares de pessoas de um país distante, acontece que um represa começa a rachar, ele prontamente vai e salva a vida de todos próximos, do mesmo com um trem, conseguindo salvar a todas essas pessoas. Mas acontece que a Lois Lane, a mulher que ele ama, acaba tendo uma fissura se abrindo na terra, ela cai com seu carro e acaba morrendo, acontecendo que o Kal-El depois de ter salvo a vida de milhares de pessoas, não consegue salvar a vida da mulher que ele ama. O filme, ele mostra como esse ser, o homem mais poderoso do mundo, ele sente sua impotência, tendo uma dor tão grandiosa, pois nós, quando não conseguimos salvar as pessoas que amamos, nos sentimos fracos e impotentes, mas ele, diferente de nós, conseguiria. A dor que ele sente, ela é tão visceral, tão superior à nossa, pois ali, é a dor de um deus, algo que somente a fantasia pode proporcionar. Do mesmo modo é com todos os campos, sejam de relação a emoções ou a qualquer aspecto. A fantasia é local, onde os autores conseguem criar e fazer experimentações, tanto no sentido de algo intelectual, quanto emocional ou sensorial.


Espero que vocês tenham gostado deste especial preparado com muito capricho! Até o próximo conteúdo e um forte abraço!



Informações extras:


Fotografias: Pollyana Trindade

Texto: Pollyana Trindade

Conteúdo disponível também no: Instagram

Onde adquirir a obra: Livraria Atlântico



 
 
 

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