- Pollyana Trindade

- 13 de mar. de 2023
- 5 min de leitura
× Número de páginas: 250
× Autor: Paul Tremblay
× Editora: Bertrand Brasil, Record
× Gênero: Terror, suspense
× Classificação: +16

Imagine-se no seguinte cenário:
Você está com sua família curtindo as férias ao norte de New Hampshire, há poucos quilômetros da fronteira com o Canadá, num chalé vermelho que se encontra longe da civilização, mas próximo do lago Gaudet. É um dia ensolarado e os raios de sol cintilam sobre a copa das árvores. Tudo parece perfeito e você tem a absoluta certeza de que esses dias lhe renderão boas lembranças. No entanto, tudo muda com a chegada de quatro estranhos que batem à sua porta, carregando armas assustadoras e dizendo palavras desconexas.

Eles acreditam que o fim do mundo está próximo devido a uma mensagem misteriosa que receberam. Só há uma forma de impedir o apocalipse: sua família deverá escolher sacrificar por vontade própria um de vocês para impedir que o planeta Terra acabe!
Escrito por Paul Tremblay, este cenário perturbador inspirou o filme M.Night Shyamalan, "Batem à Porta".
"— A mensagem é clara, e nós somos os mensageiros, ou um mecanismo por meio do qual a mensagem deve ser transmitida."
Embora tenha um ritmo lento até a página 100 aproximadamente, a história conseguiu me prender pela narrativa exuberante, que me transportou de tal forma que em certos momentos consegui ouvir os sons, imaginar a iluminação como o nascer e entardecer do sol, e as feições dos personagens nos diálogos.
A ambientação é descrita de forma bem vívida, o que ajuda a trama a parecer realista. Sem sombra de dúvidas, a característica (na minha opinião) mais forte da obra.

Wen, Eric e Andrew compõe o núcleo de protagonistas. Uma família imperfeita, onde cada membro possuía seus próprios dilemas, medos e tramas, mas que se amavam e demonstravam isso todos os dias com pequenas e sutis atitudes. A relação que ambos os pais tinham com sua filha era surreal. Vê-los juntos é lindo; seja nas lembranças do passado antes da desgraça acontecer e todos estarem numa situação de extremo perigo, seja no presente, onde Eric e Andrew fazem de tudo para mantê-la em segurança, preservando sua inocência.
"— Mas escuta: até mesmo os melhores pais do mundo se preocupam, enchem o saco e fazem merda. Você tem de se permitir fazer merda e permitir que Wen faça as merdas dela também. Aceite que nenhum de nós jamais será perfeito."

"O Chalé no Fim do Mundo" vai muito além de uma história de terror clássica. Claro, é digna sim de todos os aplausos e elogios devido a excelente construção narrativa, as cenas emocionantes e a temática central envolvendo apocalipse e sacrifício. Porém, a obra para mim vai muito além do horror. Ela representa o que a sociedade está buscando ultimamente quando nos referimos a uma boa história: realismo, críticas sociais e políticas, mensagens de reflexão, diversidade e inclusão.
Com representatividade LGBTQIA+, os protagonistas da obra, Andrew e Eric são homossexuais, pais adotivos amorosos e personagens fortes, que não se deixam abalar mesmo quando tudo parece não haver mais solução. Eles são resilientes e não digo isso só pelo que ocorreu no chalé.
Andrew foi vítima de um ataque brutal num bar, oito anos antes dos acontecimentos nas férias. Mesmo tendo sofrido uma agressão, ele deu seu melhor para seguir em frente (mesmo que não tenha conseguido 100%). Ele arranjou formas que o fizessem se sentir mais seguro e evoluiu muito no quesito autoconfiança. O problema nunca foi quem ele era, ou sua opção sexual. O problema sempre esteve nas pessoas que se achavam no direito de atacar alguém por puro ódio e preconceito, não enxergando o quão ridículo, arcaico e bárbaro é seu pensamento/comportamento.
"Sempre que Andrew está em um lugar público, percebe os olhares e ouve seus comentários. O fato de sentir que é obrigado a adaptar ou ajustar seu comportamento, sua essência, apenas para que o deixem em paz, para não se sentir ameaçado, enche-o de vergonha, culpa, medo e raiva."

Eric, por outro lado, enfrentou seus pais para ser livre e assumir quem verdadeiramente era. Teve que morar de favores na casa de amigos para pagar a mensalidade da universidade que os pais deixaram de pagar após ele revelar ser gay. Passou anos sem falar com eles. Não imagino o quão sofrível deve ter sido. E mesmo seus pais visitando-o de vez em quando, seu relacionamento com eles não é mais o mesmo.
"Eric registra. Seus pais nunca dormiram no quarto de visitas da casa e sempre insistiram em ficar em um hotel, dizendo que não queriam incomodar ou atrapalhar. Sua mãe diz isso com tanta veemência e arrependimento que Eric acredita ser verdade."

Já Wen é uma garotinha chinesa adorável, esperta demais para sua idade, como o livro sempre reforça. Dona de uma personalidade forte, ela sempre sabe o que quer. Corajosa e destemida, ama seus pais mais do que tudo no mundo e dá para perceber isso.
No entanto, ela não é inteiramente feliz como demonstra. Ela ama seus pais, mas vemos um outro lado dela que Andrew e Eric desconhece: o sofrimento que ela carrega por ter sido abandonada. Ela se questiona sobre isso, em certos momentos, chega a se culpar.
"Wen é simpática, sociável e tão engraçada quanto qualquer outra criança de sua idade, mas não é nada generosa com seu sorriso reconstruído. Seus sorrisos têm de ser conquistados."
Quantos Andrew, Eric e Wen não existem no mundo?
"O Chalé no Fim do Mundo" talvez seja um grande sucesso pelos personagens tão marcantes e realistas, que nos fazem não só se colocar em seus lugares, como também em compará-los com casos reais, estes que passam nos jornais e documentários onde ocorrem LGBTQIAfobia e abandono de crianças por exemplo.

O fascínio religioso foi outro fator que marcou presença na trama. Na obra não fica claro se tudo não passou de um delírio por parte dos quatro visitantes misteriosos: Leonard, Redmond, Adriane e Sabrina; ou se de fato o apocalipse estava acontecendo, embora fosse pouco provável na minha opinião.
O que não deixa dúvidas é a forma doentia como todos os quatro acreditam veementemente no que viram em seus sonhos, chegando a se sacrificarem por uma crença, algo que nem eles sabem 100% da veracidade.
Trazendo para a realidade, podemos fazer uma analogia às pessoas extremistas que agem em nome de uma religião (seja ela qual for) e pregam por amor e paz, enquanto cometem atos cruéis e perversos.
"— Leonard disse que Deus está mandando eles fazerem isso. — afirma Wen, que está no sofá.
— Quando ele disse isso? — Indaga Andrew.
— No meio da noite. Eu acordei e ele estava acordado também.
— Bem, ele está enganado. — responde Andrew —, são eles que estão fazendo isso. Nada nem ninguém, a não ser eles."

Por fim, não poderia encerrar minha resenha sobre "O Chalé no Fim do Mundo" se não falando sobre o final. Afinal, ele é bom?
Eu não assisti o filme (ainda), mas sei que alguns de vocês detestaram os acontecimentos que se sucederam do ápice até a conclusão. O que posso dizer é que o final DO LIVRO foi bem condizente com a proposta do autor. Claro, eu não gostei de certa coisa que aconteceu (não vou citar devido a spoiler), mas entendi que se não tivesse ocorrido, o final não faria sentido, tudo mudaria.
Acho que o final foi como uma centelha de esperança após dias de tempestade. É como ver um raio de sol, bem pequeno, começando a afugentar as nuvens cinzentas. Não foi feliz, contudo não foi inteiramente triste.
Recomeço é a palavra que define melhor a conclusão de "O Chalé no Fim do Mundo". Como disse o próprio Andrew:
"A tempestade rodopia diretamente acima de nós. Mas nós já passamos por várias outras tempestades. Talvez seja diferente. Talvez não. Seguiremos."
Espero que tenham gostado! Escrever essa resenha para mim foi tão gostosa...Era como se estivesse lendo o livro mais uma vez. Agradeço a Record pela oportunidade e pela confiança, e a vocês, meus queridos leitores. Um forte abraço e até a próxima resenha.

Informações extras:
Fotografias: Pollyana Trindade
Texto: Pollyana Trindade
Conteúdo disponível também no: Instagram
Siga a editora: @editorarecord e @grupoeditorialrecord
Onde adquirir a obra: Amazon e Livrarias Curitiba












