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Entrevista: Ronald Aquino

  • Foto do escritor: Pollyana Trindade
    Pollyana Trindade
  • 26 de mar. de 2023
  • 6 min de leitura

Ronald de Aquino Bosio nasceu em Espírito Santo, em Abril de 2002. Em 2020, ingressou num seminário católico, com o objtivo de começar um caminho de estudos para se tornar padre. Após um ano, deixou a instituição, quando descobriu não ser essa a sua verdadeira vocação, dedicando-se a algo que sempre lhe despertou interesse: a escrita.

Ronald é redator e comentarista de cinema no site "A Odisseia". Sua paixão por enredos subjetivos e psicológicos, antropológicos e filosóficos deram origem a seu primeiro livro publicado, "Cidade dos Pecadores", uma história de terror e suspense publicado pela Editora Flyve.


Em uma entrevista exclusiva para o The Fawkes, Ronald conta curiosidades sobre sua vida pessoal, sua obra e sua carreira como escritor.


Você sentiu alguma dificuldade em colocar teu livro no mercado editorial por

conta do gênero da obra (terror)?


Eu senti um certo receio, por eu ter uma história com temáticas delicadas, banhadas em um gênero que é, ainda, um tanto quanto subestimado. Até porque, eu tinha entrado em

contato com outras editoras, para saber como eram os processos de recebimento de

originais, existência de competições, ou algo assim, e recebi respostas negativas.

Confesso que até perdi até um pouco do ânimo. Mas foi aí que encontrei a Flyve, o

berço ideal para “Cidade dos Pecadores”. Fiquei apaixonado pela forma de trabalho da

editora, por ver uma gama de gêneros publicados e ter muita transparência com os

processos. E cá estamos nós!


Você acredita que o gênero terror vêm ganhando destaque nos últimos anos na

literatura? Qual sua opinião sobre?

Com certeza! Eu sou uma pessoa apaixonada por terror. É um dos gêneros que mais me marca e o que mais gosto, justamente por sua versatilidade. Infelizmente, têm-se no imaginário popular que o terror é formado por uma história rasa e exagerada, principalmente no que se diz respeito à violência. E não é bem assim! Cada vez mais, temos visto enredos aterrorizantes com pautas sociais, críticas e muita complexidade, o que torna a experiência ainda mais rica. Arriscaria dizer que é o gênero que mais mexe com seu espectador, e por isso, pode ser ainda mais esgotado em suas possibilidades.


"Cidade dos Pecadores" vendeu super bem em sua pré-venda e tem conquistado o público pelas críticas religiosas, sociais e pela abordagem de temas polêmicos, mas necessários. Como tem sido lidar com o feedback dos leitores sobre tua obra?


Tenho estado mais ansioso para receber os feedbacks do que quando tinha meu livro em

pré-venda! Isso porque, “Cidade dos Pecadores” é uma história muito importante para

mim. Tem muitos aspectos pessoais, escondidos em sentimentos e angústias que todos

nós, um dia, passamos. Tudo isso, junto a uma história de múltiplas camadas e repleta

de pistas e plot-twists. Então, saber que alguém gostou e se envolveu com a obra, é uma

grande conquista, e me deixa extremamente orgulhoso por todo o processo. Ainda mais,

quando ouço as mais diversas interpretações que tiveram da obra, e comentários de

identificação com as dificuldades vividas por Louis ou outros personagens. Para mim,

essa variedade de sensações e experiências é a grande beleza da arte!


Para você, qual foi o tema que você sentiu mais dificuldade em escrever por ser

delicado ou lhe causar algum desconforto?


A religiosidade como um todo. Eu vim de um contexto católico muito influente em

minha vida, e juntar todas as referências que tenho para construir uma história um tanto

quanto polêmica por abordar diversos assuntos em contraste com a religiosidade,

principalmente no que tange a sexualidade, foi um trabalho que exigiu muito de mim.

Isso porque eu não queria ferir o catolicismo. Não é como se fosse uma revolta pós-

saída do seminário, como algumas pessoas próximas de mim já pensaram. Eu vi, e vivi,

muitas hipocrisias nesse ambiente. Em “Cidade dos Pecadores”, minha denúncia é

voltada a grande parte do povo que não pratica o credo que professa, e pior: despreza o

outro, o irmão próximo. E somente nesse aspecto foi que eu não pude deixar de pesar a

mão.


Você pensa em se aventurar em outros gêneros?


Penso muito! Eu escolhi o suspense/terror para meu primeiro livro, por ser um gênero mais próximo do meu tipo de narrativa, que já estava pré-concebida. Mas sou, antes de tudo, um contador de histórias! E quero explorar minha escrita em outros gêneros também. Meu estilo é bem mais dramático que qualquer outra coisa. Gosto de explorar as nuances de personagens reais e profundos... então, o próprio drama, um romance mais psicológico, distopia, são outros gêneros que se encaixariam muito bem com o tipo

de história que eu conto, e que ainda quero contar!


Como surgiu a inspiração para escrever "Cidade dos Pecadores"?


Tinha, desde meus dezessete anos, a ideia de escrever uma história em que um padre

fosse o personagem principal. Mas foi somente no segundo semestre de 2020, quando

ainda estava estudando no seminário, que dei ao que começava a se parecer com um

rascunho de uma história o espírito de indignação que permeia o que é “Cidade dos

Pecadores” hoje. Àquela altura, eu tinha percebido que eu estava mentindo pra mim

mesmo sobre quem eu era e quem eu queria ser. E quantas pessoas não viviam assim?

Quantas pessoas não se utilizavam da religião para validarem imagens de porcelana,

enquanto escodem suas maiores perversidades... É um livro que sai de angústias

pessoais e se estende a reflexões sociais universais.


Pode me contar alguma curiosidade sobre seu processo criativo?


Eu tinha cada capítulo e cada destino de personagem bem planejado. O final, por

exemplo, foi completamente mudado, em razão de como a narrativa vinha se

desenvolvendo até então. A história tinha aspectos muito mais mórbidos e perturbadores

para evidenciar, principalmente por parte de Alberto e Felício, a degradação da

sociedade como um todo. Durante a escrita, que durou de quatro a cinco meses, eu

percebi que esse não era o foco e o objetivo do livro. Eu tinha criado uma narrativa mais

intimista e poética, e iria contradizê-la com cenas gráficas e perturbadoras, sem tanta

necessidade. Assim, algumas subtramas como o passado do delegado, da relação de

desconfiança entre o prefeito e a esposa, o destino do Vale de Heu... tornaram-se menos

influentes, e mais abertos a interpretações.


Os personagens de "Cidade dos Pecadores" são bem falhos, repletos de defeitos.

Também possuem um lado bem perverso. Realistas, eles representam o que há de

pior no ser humano. Na sua opinião, qual é o pior personagem neste sentido? E

como foi desenvolvê-lo?


Sem dúvidas, o sacristão da comunidade, Josué. Eu o escrevi para ser desprezível, de

moral detestável. Ele é a representação de toda “boa pessoa”, que se diz seguidora de

bons costumes (importante ressaltar que pode ou não estar relacionada à religião); mas

que se afunda nas próprias mágoas e pecados, por se achar suficiente. Ou, até mesmo,

em nome de uma imagem pura e intocável. A hipocrisia, em todas as suas formas, é o

ponto alvo de “Cidade dos Pecadores”. E Josué é a personificação disso.



Sua história fala bastante sobre religião e doutrinação. De onde surgiu a ideia para

escrever sobre? Era uma temática que já planejava escrever ou surgiu

naturalmente?


Minha criação de berço foi na igreja católica. Eu tinha uma relação muito profunda com

a religião e todos os seus aspectos. Num determinado momento da minha vida, eu

literalmente me obrigava a estudar o catecismo, e Sagrada Escritura, a história da

Igreja... Tudo para melhorar ainda mais minha imagem de alguém apto para ser um líder

religioso, que era como pensava na época. Após passar um tempo inserido nesse

contexto, eu percebi que eu não estava sozinho... tinha muita gente se apropriando do

discurso da “Boa Nova” para sair beneficiado. Ou, até mesmo, para despistar as pessoas

de comentários acerca de “sexualidade duvidosa”. E eu sabia que isso não ia acabar de

forma saudável, para nenhum dos lados. Todos viam, mas ninguém queria assumir: até

que ponto os rigorismos propostos por uma instituição religiosa são capazes de segurar

tristezas, traumas e angústias? Tomando o pano de fundo cristão que veste “Cidade dos

Pecadores”, essa é a grande reflexão: os limites e perigos de se ater, desesperadamente e

com pouquíssima (ou nenhuma) humanidade, a leis e preceitos, destruindo toda e

qualquer concepção de amor. Inclusive, a divina.


Quais são seus planos para o futuro? Têm alguma nova obra em desenvolvimento?


Pretendo continuar me dedicando à escrita, como redator no site de cultura pop que

participo, o “A Odisseia”; e aperfeiçoando minha técnica cada vez mais. “Cidade dos

Pecadores” me mostrou que eu não só fui capaz de realizar um sonho e publicar um

livro, como de conquistar leitores e criar histórias memoráveis, que possam realmente

promover a reflexão e incentivar à mudança. E esse sempre foi o grande objetivo! Por

enquanto, estou só rascunhando ideias e buscando um novo enredo incrível para

desenvolver. Descobri que minha especialidade são livros com uma densidade poética,

repletos de camadas e com personagens problemáticos! Então, já dá para ter uma ideia

do que esperar! (Risos); Mas prometo que no primeiro sinal de novidade, corro para dar

um spoiler!


Vamos fazer uma brincadeira? Para fechar essa entrevista com chave de ouro, imagine-se como um morador de Vale de Heu. Como a maioria dos cidadãos, você começa a frequentar a igreja para se confessar ao neossacerdote Louis. Qual segredo você compartilharia com ele?


Eu brincava de padre quando era criança! Colocava um roupão de banho, pegava água

num pequeno copo em formato de taça, um biscoito maizena redondo e minha versão de

bolso da Bíblia, e rezava uma missa inteira só para minha mãe. Desde aquele tempo,

achava que Deus queria que eu fosse ordenado para, assim, ser capaz de ajudar Seu

povo a entender Seus ensinamentos. Hoje, vejo que essa não é minha vocação. Mas

ainda assim, independentemente de qualquer coisa, continuo podendo usar palavras e

histórias para fazer a diferença na vida das pessoas.



A obra "Cidade dos Pecadores" está disponível para compra no site da Editora Flyve (versão física) e em ebook na Amazon, incluído também no Kindle Unlimited!

Caso você tenha se interessado pela obra e quiser saber mais sobre, no meu Instagram se encontra disponível a resenha da obra e o reels mostrando todos os detalhes da edição!


Siga o Ronald Aquino para ficar por entro de mais novidades sobre "Cidade dos Pecadores" e novos lançamentos!


Informações Extras:


Reportagem: Pollyana Trindade

Convidado: Ronald Aquino

Fotografia: Ronald Aquino, Pollyana Trindade


Um forte abraço e até o próximo conteúdo!


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